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MATERNIDADE

Para mim (e acho que para tantas mulheres), a entrada na maternidade foi algo extremamente intenso, transformador e também muito desafiador. E mesmo com o passar dos anos, continua sendo um tema que ocupa minha mente, primeiro porque ocupa muito do meu cotidiano, segundo porque é um amor e uma responsabilidade tão gigantes que ocupa muito das minhas preocupações, inquietações, pensamentos. É como se fosse um portal no qual entramos, para sempre. Minhas crianças têm 9 e 6 anos, então estou começando a sair da fase "crianças pequenas," mas esta fase ainda reverbera muito em mim, e a maior parte dos meus trabalhos pessoais recentes, toca no tema da maternidade. A partir da maternidade, emergiram cada vez mais em mim várias indignações com relação ao machismo, e também aumentou minha indignação em relação às desigualdades e injustiças estruturais, a exemplo do racismo, do sexismo, etc. Ao mesmo tempo, foi a partir da maternidade que comecei a me perceber como artista e a sentir a necessidade impetuosa de me expressar sobre estas tensões. Hoje estou procurando maneiras de me expressar artisticamente, e além do audiovisual estou atraída pelas artes visuais, seja nas artes têxteis e outros experimentos, como um meio de colocar para fora e de compartilhar com outras pessoas o que venho me debruçando sobre. Além de a arte ser para mim um espaço de respiro, de brincadeira, uma válvula de escape onde procuro a leveza que está me fazendo falta. Então ao mesmo tempo em que a maternidade é um fator claramente limitante na minha vida, estas próprias limitações criam uma necessidade imensa de encontrar espaços de liberdade, de individualidade, de expressão, e estou procurando estes espaços no fazer artístico.

Amandine Goisbault

Amandine Goisbault

Obras da artista

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Obra da artista

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Bruna Pedrosa

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 A maternidade foi um divisor de águas na minha vida em todos os aspectos. Trabalhava como coordenadora de artes visuais em uma grande instituição pública federal e fui exonerada ao término da minha licença maternidade, em 2016. Como mãe solo de um bebê de 6 meses e desempregada, precisei me reinventar. Fiz uma formação e comecei a atuar como doula. O puerpério pra mim foi muito dolorido e o desejo de ser amparo a outras mulheres nesse processo da maternidade foi um crescente. Gerar, gestar, parir e criar um ser humano é de uma intensidade e aprendizado sem limites. Em 2018 ingressei no mestrado e desde então venho produzindo obras e pesquisas acerca da relação entre arte e maternidade. Os desdobramentos têm sido muito gratificantes e mostrado a importância da coletividade, da aproximação entre mulheres-mães-artistas. Construir o Mapa Afetivo da Maternidade com outra mãe com uma realidade diferente da minha ampliou seus significados, usar essa obra como ponto de partida para oficinas que promovem a discussão com outros cuidadores sobre parentalidades possíveis ampliou ainda mais. Criar a RAMA (Rede Afetiva de Mães Artistas) aqui em Pernambuco foi mais um passo importante dado. Poder participar desse projeto que traz a discussão em nível nacional nos mostra que estamos no caminho certo. Juntas somos mais fortes. Meu sonho atual é participar da criação de políticas públicas que atendam as nossas necessidades. A vida começa em nós. E somos as principais, quando não as únicas cuidadoras responsáveis pelo crescimento, desenvolvimento e educação dos nossos filhos. Se as crianças são o futuro do mundo é preciso dar a elas mães saudáveis, física, emocional e psicologicamente. E pra isso é necessário que toda a sociedade reconheça seu papel e importância. A arte é a forma que usamos para comunicar isso.

 
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Bely Bitencourt

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Obra da artista

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Faço da minha arte, ferramenta de cura para mim e para os outros. Meu filho me inspira constantemente, portanto, vive através da minha arte. Aprendi e continuo aprendendo dentro da maternidade, das várias formas que ela se apresenta pra mim. Nesse vídeo faço uma comparação com os aspectos da maternidade e o jogo do malabarismo, há semelhanças entre maternidade e arte. Tanto o artista quanto a mãe compartilham alegrias, dores e tristezas parecidas. A arte é mais uma forma de maternar, cuidar. O artista busca aquilo que é mais belo para presentear os outros, para provocar boas sensações em quem toma contato com sua obra. Da mesma forma, a mãe busca dentro de si aquilo que há de mais belo e precioso para presentear o filho, faze-lo se sentir melhor.

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Obra da artista

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Caísa Tiburcio

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A peça Travessia fala do medo e do amadurecimento de crianças com toques de comédia e de poesia, foi inspirada na minha própria vida de mãe, atriz, diretora e palhaça. Um dos meus filhos está com nove anos e está passando por essa fase da saída da primeira infância e entrada em um mundo real, onde percebe o medo, a morte, a forma como os adultos também são falíveis. É uma transição que pode ser muito forte, ainda mais em contexto de pandemia como o que vivemos. E é um assunto cheio de espinhos, doloroso de se trabalhar, mas ao poder fazer isso como palhaça, eu ganhei uma espécie de poética poder fazer isso como palhaça, trazendo um pouco de leveza para essa transição”. O espetáculo ganhou o título de “Travessia” justamente por reunir várias metáforas para este momento de transição. “A história é, na prática, sobre uma criança que quer atravessar um corredor para ir a um banheiro, mas está com medo do escuro no trajeto, mas claro, também é uma representação desta fase de rubicão, como se define na filosofia. E por ver meu filho passando por isso em casa, pude usar muitas falas dele, construir essa travessia conforme construía o espetáculo”, afirma. Em cena, tenho o auxílio cênico de diversos brinquedos infantis, especialmente um grande pião metálico e sonoro, pois achei bastante simbólico, a roda que perde um pouco o equilíbrio através do movimento. A montagem trabalha com as linguagens da palhaçaria e teatro de objetos.

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Obra da artista

 

Calini Detoni

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Ser mãe solo de dois, artista de rua, circense e ter que lidar com todas as facetas da maternidade e vida profissional não é algo tão simples, a sensação é que temos sempre que dar conta de tudo. As contas que vencem... mas não somos vencidas por elas. A produção, venda do trabalho e conciliar treinos, bagunça, limpeza da casa e eventuais necessidades dos pequenos muitas vezes nos geram uma grande carga mental e física. Depois de pensar isso olho pra trás e vejo com mais clareza tudo que realizamos juntos, tudo que o amor e só ele nos move pra construir uma vida melhor aos pequenos. Ser forte pra eles crescerem saudáveis e prover todos os recursos em que eles necessitam. Sinto muito alegria por eles estarem bem e com saúde, só tenho a agradecer ao universo as oportunidades que tem me dado para criar esses dois lindos pimpolhos. Motivo da minha existência, eles me trazem força pra encarar a vida de frente, pra sermos a cada dia mais realizados e felizes.

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Obra da artista

 

Carolina Galgane

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A maternidade e a maternagem são ações, papéis e funções sociais pouco valorizadas socialmente, economicamente e culturalmente. Estando normalmente associada a construções históricas irreais do mito do amor materno, do dom natural para o serviço doméstico e o cuidado incondicional (aquele acima de si mesma), intimamente associadas a um conjunto de "fazeres/obrigações/imposições socio-político-culturais" que determinam e delimitam o ser mulher-mãe-artista na contemporaneidade. Essa "delimitação", cria fronteiras e barreiras, que determinam o nosso estar/ser/viver o cotidiano. Portanto é necessário, como mulheres e como mulheres-mães, estarmos cada vez mais cientes do papel que executamos, como executamos, porque executamos, para quem executamos, a quem favorecemos e a quem desfavorecemos. No intuito de não permanecermos presas aos ideais econômicos, culturais, políticos, sanitários que vão cerceando e definindo nossas ações, funções, papéis sociais e determinando o que podemos ou não fazer e como devemos ou não fazer. Para que em um tempo próximo sejamos mais donas de nosso corpo, da nossa voz, da nossa vontade, dos nossos direitos, do nosso querer, do poder fazer e não apenas o desejar fazer. Que o mundo seja menos machista, menos opressivo para conosco, menos violento, menos punitivo, menos ditador e seja mais acolhedor, compreensivo, fortalecedor das muitas vozes femininas, e das muitas outras “minorias” social e culturais que existem e reexistem deixando tudo mais diverso, mais belo, mais real, mais necessário.  Que a gente possa somar, sem delimitar, sem exigir igualdade onde se tem diversidade!

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Obra da artista

 

Clarice Gonçalvez

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A maternidade é meu tema de pesquisa a muitos anos, muito antes mesmo de eu virar mãe de forma não planejada. Nos últimos anos foi meu monólogo catártico, mas de uns tempos pra cá tem me sufocado reviver os processos, então vou colar aqui um texto que escrevi ano passado em plena pandemia, que pra nós, mães foi um segundo puerpério. Sabe… às vezes eu canso de ser artista. De me cobrar inspiração e profusão de criações. Nos últimos sete anos na maior parte do tempo eu sou só uma dona de casa. Uma gerente CEO de manutenção da vida. É cada vez menos difícil (e não menos dolorido) aceitar que grande parte do tempo o que é aparentemente mais importante a ser feito é manter a despensa cheia, a louça limpa, as roupas em ordem… e agora com a pandemia os conteúdos escolares. E a artista que havia em mim esperneia e morre… e renasce de maneiras incompreensíveis, feita de restos. É pesado pensar que depois de tantos anos de pesquisa, formação, exposições, viagens, reflexões, o dia a dia me quer apenas uma mãe. Não que seja pouco, mas não me cabe por inteiro. Não do jeito que a sociedade se constituiu. Ou as crenças daqueles que me rodeiam, a ´rede de apoio´. Quando pendulo para o papel de artista há um ardor, um formigamento e muitas vezes dormência. Eu não vou romantizar isso me contorcendo pra ser tudo. Acho bem bacana as que conseguiram, mas não acho um ideal a ser seguido a todo custo. Somos seres humanos. Não deveríamos ter que abrir mão de horas de descanso pra poder criar. E nem todo mundo consegue ser criativo com crianças correndo pela casa. Mas a cada ano que passa em cada mês, minuto do dia, me condenso, hiberno, silencio, explodo e entro em erupção. Danço constantemente com o medo do que virá nesses hiatos entre os pintares. O sentido, a narrativa, a coerência e contemporância, a pertinência e a relevância. Me chamam de mãe 24hs, sete dias por semana. Saudades de ser mais Clarice.

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Obra da artista

 

Iara Sales

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Acredito que quando nos tornamos mãe, a palavra mãe se torna sujeito de todas as nossas frases. Quando idealizei a residência artística e exposição “mãe-artista ou artista mãe?” (2021), via LAB PE 2020 , foi primeiramente para oportunizar às mães-artistas um espaço de criação, acolhimento e de reflexão sobre os desafios, silenciamentos e gozos de ocupar socialmente o lugar de mãe-artista. Politicamente é importante pensarmos e ocuparmos espaços e lugares de fala, para nós mães artistas. Reelaborar narrativas da maternagem através da criatividade artística é desafiador, mas também muito frutífero. Mesmo antes da proposição e realização do projeto “mãe-artista ou artista mãe?”, a maternidade já havia tomado conta de todas as horas do meu dia e não pensar nela, era humanamente impossível. Como conseguir continuar criando, sendo mãe? Como ser artista e mãe? Perguntas que continuam ecoando. Particularmente a solidão materna é um tema que me afetou bastante e meu filme-dança, “Falta colo, mas colo eu tenho para dar”, acabou sendo um grito-desabafo solo, mas que também é coletivo. Em falar em coletivo… A residência artística gerou muitos frutos, o mais rico posso dizer que foi a fundação da 'Coletiva Mãe Artista', somos 8 mulheres (mães-artistas) de diferentes estados do Brasil e de diversas linguagens artísticas, que além de produzirmos juntas artisticamente, somos uma grande rede de apoio, não apenas para nós mesmas, mas para muitas outras mulheres-mães-artistas.

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Obra da artista

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Joana Wanner

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Procurei adiar o máximo que pude a maternidade, pois sabia que não seria fácil conciliar com a vida artística, mas ainda bem que não desisti desse projeto, afinal de contas aprendo muito com minha filha. Depois de um tempo que era mãe consegui retomar minha carreira artística e acredito estar na melhor fase comigo mesma. Os motivos para a criação de “Diários de uma mãe sem filha” vieram quando soube da Exposição Virtual “A doce Matéria Mater” e justamente estava nessa semana fatídica, então porque não relacionar Arte e Vida ou Vida e Arte e compartilhar com atuais e futuras mamães artistas a dor e a delícia de ser Mãe! Observação: Perdi meu Pai de 71 anos por Covid há 10 meses.

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Obra da artista

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Joanna om

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A performance nasce no desejo de contar-me enquanto mãe, mulher, artista e modela uma vivência que me borra e constitui, a maternidade. Não a incondicional, imaculada e sagrada, mas, aquela que vira potência através da dor imensurável e contínua. Após um puerpério que durou dois anos e uma depressão pós-parto não diagnosticada, encontrei-me transbordando num palco de teatro com outras mulheres que debatiam sobre violências sexuais depois de um espetáculo. E é nesse contato que tomo consciência de um estupro vivido no dia que pari minha filha, ou que ela me pariu como mãe. Por isso a urgência de esmiuçar a categoria mãe que seja em vídeo, cena, performance utilizando-me da arte rente a vida. Alimentada pela pandemia me confundo, desboto e registro um surto que me traz saúde.

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Obra da artista

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Jocarla Gomes

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Foi em 2018, a partir de uma gestação de gêmeas que passei a ter uma atenção sobre as maternidades, o papel social e afetivo da MÃE e as transformações do corpo, do ser, do estar, do pensar, do se relacionar de uma mulher ao tornar-se Mãe, e o quão é necessário quebrar tabus (corpo, papel social, sobrecargas, sexo, relações) sobre um CORPOMÃE imposto ao longo da história de nossa sociedade às mulheres, e como é preciso tornar-se cada vez mais visível para todes. Nesta pesquisa da performance MÃE tenho como referência o Caboclo de Lança do Maracatu Rural, a figura que é guerreira, abre caminhos, protege carregando sua guiada e seu surrão. Aqui a figura da guerreira percorre ruas da cidade carregando a guiada, o surrão com seus chocalhos estridentes e com uma pergunta aos transeuntes: Você já olhou para uma mãe hoje? Você já teve empatia por uma mãe hoje? Trata-se de atravessar os cotidianos deslocando a figura da Mãe isolada, em casa, invisível, trazendo-a à tona, em especial tendo como referências as mães pretas e indígenas do nordeste.

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Obra da artista

 

Karen do Paninho

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Gerar alguém e zelar por alguém é algo tão poderoso quanto difícil. A obra é uma colagem feita com detalhes em tecido e bordados livres. A foto da obra retrata o dia em que me tornei mãe, onde me confrontei com a realidade da maternidade, incluindo seus prazeres, suas dores e o inexplicável vínculo mãe - filho. A intenção da obra é mostrar o equilíbrio entre imaginação, verdade e realidade do corpo e da mente em transformação.

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Obra da artista

Laís de paula

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Dado o isolamento social e a intensificação da sobrecarga física e mental das mulheres no contexto da pandemia, nasce o desejo de fazer ver, ouvir, rir e chorar aspectos cotidianos que retratem o que mulheres têm vivenciado trabalhando de casa (home office). Trabalho este que - muitas das vezes - acontecia fora do âmbito doméstico e que, há mais de um ano, tem sido atravessado e tem atravessado os cuidados da casa e dos filhos, a intimidade dos lares, etc. Inspirada pela sua própria vivência, a atriz Laís de Paula - mulher branca, mãe, trabalhadora home office - intenta problematizar questões relacionadas ao machismo e à sociedade patriarcal, fazendo sobrevir a sobrecarga, vulnerabilidade, pressão, abandono, julgamento e trabalho do cuidado não remunerado e invisibilizado que ocupa, em média, mais de 61 horas por semana das vidas das mulheres brasileiras, segundo estudo da Think Olga a partir de dados do IBGE. Assim, o objetivo principal da performance é tornar audível e visível a sobrecarga de gênero, evidenciando os impactos da economia do cuidado e da responsabilidade pela manutenção da vida. Se tratando de um tema pouco abordado desde uma perspectiva artística e lúdica, a performance “Muié Office” se mostra original, criativa e inédita.

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Obra da artista

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Liu Moreira

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O ser artista, para mim, foi algo que sempre esteve relacionado a felicidade, ao prazer de fazer algo que preenche meu corpo com êxtase, energia, luz, satisfação. A dança é meu hormônio da felicidade, por isso fui em busca de uma faculdade de dança, dancei em Cias. de Dança nos palcos, escolas, praças, jardins, ruas. A maternidade entra na minha vida, um pouco tarde para os padrões da minha família, somente aos 32 anos. Foi algo muito desejado e teve que ser planejada durante 2 anos. Após ser diagnosticada com lúpus eritematoso sistémico, uma doença autoimune e ainda sem cura, tive que iniciar um tratamento drástico e caso não fosse bem-sucedido, não poderia ter filhos. Importante essa diferença entre a escolha da mulher em “não ter filhos” e o fato de “não poder ter filhos”. E nesse momento de incerteza e medo foi fundamental continuar dançando, dando aulas e me preencher desse hormônio da felicidade, isso me fortaleceu. O tratamento deu certo, tive duas filhas, Maria Rosa (5 anos) e Ana Liz (3anos). Nasceram de parto normal, e foram momentos incríveis e profundamente transformadores. A força da mãe que gerou, pariu e alimentou suas crias ressignificou a minha vida e minha arte. O espetáculo Ninho surge em meio a essa inquietação de uma mãe-artista-professora-pesquisadora que quer voltar a dançar, que precisa voltar a se endorfinar nos palcos. E essa é uma decisão difícil e imersa de percalços, ruídos, dores e pressões. Ser mãe?! Ser artista?! Ser mãe-artista?! O ninho foi meu apartamento de 64 m², com telas de proteção nas janelas, ali eu tentava sobreviver a uma pandemia mundial ao lado das minhas filhas e do marido. Um pássaro preso, sufocado, que ao mesmo tempo quer proteger suas crias dos perigos do mundo. Voltar a dançar nesse momento pandêmico, fazendo aulas de forma virtual, ressignificou a noção de espaço e tempo. Assim nasce meu Ninho, das inquietações de uma mãe-artista-pesquisadora que mergulha na sua ancestralidade feminina pelas histórias e memórias da sua avó, e se descobre índia preta Tapuia, nasce a mulher-pássaro. "E nela se aloja um 'eu'. Um corpo separado os outros, e a isso se chama de 'eu'? É estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela é um 'eu'".

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Obra da artista

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Maíra Freitas

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A maternidade me reposicionou no mundo e me fez aprofundar nos estudos de gênero sob perspectiva interseccional. Compreendo a categoria "mãe" como um marcador social da diferença que vulnerabiliza e precariza mulheres dentro do contexto capitalista - e necessariamente anticomunal - que vivemos. A precarização se dá no âmbito do trabalho e nas mais profundas camadas dos arranjos sociais e subjetivos. O trabalho reprodutivo, doméstico e de cuidado são campos de grande interesse em minha pesquisa poética que se relaciona com minha pesquisa acadêmica sobre arte contemporânea e suas relações com gênero, dissidência do sistema sexo-gênero e racialidade. A maternidade e a pandemia se conectaram em meu imaginário - puerpério e isolamento social - e me lançaram para o campo da prática artística para elaborar e dar conta das demandas de cuidado e inúmeras jornadas de trabalho que se intensificaram. A prática artística viabilizou saúde para mim, minha filha e minha casa e tem sido o território onde ergo a voz, como me ensinou a agora encantada bell hooks.

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Obra da artista

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Malu Teodoro

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A maternidade me deu mais força para lidar com o meu trabalho artístico. era como se a vida fosse mesmo agora: entre puerpério, perrengues e exaustão. Nesse trabalho consegui lidar com o enorme trauma de uma relação violenta e a solidão após o nascimento de minha filha. Foi desenvolvido pelo período de quatro anos: em 2018 a fotoperformance foi feita, em 2020 comecei os experimentos com os bordados de frases que escutei durante meus primeiros anos como mãe, e em 2021 bordei as imagens, que até o momento são nove.

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Obra da artista

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Maria Duringer

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Ser mãe me trouxe a coragem de ser a artista que sempre fui. Por meus filhos, e através deles, me despi da minha própria pele, e parti... no início pensei estar buscando construir junto deles e pra eles, fazia dessa prática uma extensão do meu papel de mãe (amar, cuidar, educar, ensinar, transferir valores...). Mas logo entendi que tinha outra intenção escondida, a de reencontrar a criança adormecida dentro de mim, e abraçá-la bem forte!

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Obra das artistas

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Mariana Mazivieiro

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Carol Benavides

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As integrantes da Coletiva Manada, produtoras do vídeo, são Mariana Mareseanas e Carol. Mareseanas tem estreita a relação da maternidade e do fazer artístico. O tempo quem faz o trabalho em situar o significado de ser mãe; para além de gestar, de parir e estar em presença de quem se cria. E também o próprio tempo se faz presente em se criar logísticas presas à uma rotina comum, ao entendimento geracional com recorte de gênero, à pergunta do que se cada uma, de fato, 'pode ser o que quiser' (em debate contemporâneo), somado às controvérsias do 'amor incondicional' e à inspiração dos compartilhamentos com outras mulheres, mães e não-mães.

 

Eu sou Carol, mãe artista e mulher

ser mulher, artista e mãe solteira tem sido um desafio para mim, quando pari tive que me reconhecer novamente me senti perdida, entender que estava passando por um relacionamento tóxico e receber um novo ser na minha vida foi um labirinto de sombras, em algum lugar eu me perdi de amor e dor...

Agora não sou o centro, sou um satélite... Aceitando que algo morreu e algo nasceu em mim, acomodando meus sonhos, o que me faz vibrar, tive medo.

Nessas sombras tentei dançar... e meu filho dançou comigo, tentei cantar e ele tocou tambor, tentei pintar, coloquei meu nariz de palhaça e ele fez tudo tão espontaneamente... ai entendi graças a ele que a arte também me ajuda a ser mãe, ainda me perco, rio, choro, me canso, mas já encontrei uma base para cair, o riso continua, vou colando pedaços quebrados e abraçando minhas certezas... a partir daí desenho, agora aprendi a andar, com isso estou aprendendo a me expressar.

Para criar uma criança, você precisa de uma tribo... Provérbio africano.

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Obra da artista

Marta Mencarini

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Passei a maior parte do meu tempo de adulta, sendo muito bem-sucedida em não engravidar. Foi depois dos 30 anos que decidi que queria ter filhos. Confesso, eu não tinha ideia do buraco que se abria, do portal que estava atravessando e que dele não há volta, ou há em várias camadas subjetivas para retornos em diversos degraus do tempo-espaço outro. Em (re) envolvimentos, (re) construções e (re) existências de mim mesma, minha cria e minha mãe. Passei a me dedicar a ouvir e lembrar, a perguntar e refletir, construir e (des) construir essa linha feminina e ancestral que me inclui, fortalece e questiona; bisavó, avó, mãe, filha e neta. Ser mãe-artista mãe no Brasil é uma trincheira. Tem-se que assumir o corpo-mãe-quimera-polvo com seus diversos tentáculos que abarcam funções domésticas, públicas, privadas, manutenção e cuidados, cobranças sociais e pessoais em um exercício diário de transmutar determinismo socioculturais. Não teremos pressa para acabar nossos trabalhos artísticos, nosso tempo não é o mesmo desse sistema que aí está posto. Negociamos diariamente e enfrentamos nossos familiares, companheiros, colegas de trabalho e/ou qualquer pessoa que se atreve a sugerir soluções patriarcais. Investimos e exigimos recursos financeiros dignos às mulheres que trabalham conosco, seja dentro ou fora de nossas casas. Criamos redes de apoio, nos avizinhamos como comadres-mães que buscam objetivos semelhantes. É cada vez mais alarmante a necessidade em debatermos e construirmos estratégias para inserir artistas-mães no sistema das artes; Museus, galerias, residências artísticas, programas de incentivo etc, como este projeto "A Doce Matéria 𝘔𝘢𝘵𝘦𝘳", que seja forte e consistente, que venham muitos mais.

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Obra da artista

Natali Chimbica Loquita

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A maternidade foi e é um desafio que traz muitas mudanças, e, situações novas das quais ninguém, nem nada, "me ensinou". Um turbilhão de emoções. Desde o gerar até o parto é um total "descontrole" de situações. Com certeza sinto que tive que morrer quando tive que parir, para renascer, para ir rumo ao desconhecido. Ter uma cria é uma oportunidade de dar-se um mergulho em si, mas ao mesmo tempo, ver exposto na criança o reflexo de atitudes e sentimentos diversos. Pessoalmente, nunca imaginei como seria complicado e complexo a responsabilidade em criar um ser que é totalmente dependente principalmente da mãe. Exaustivo e Surreal. Viver assim em simbiose com outro ser de maneira tão profunda, foi e é ainda muito importante para perceber meus medos em relação a separações e perdas. A entender o que é doação sem me esquecer de mim, aprender a lidar com limites com amorosidade, a entender quem sou eu de verdade. Depois que vim a ser mãe, comecei a acreditar que só se pode AMAR de verdade se há esse DOAR de AMOR, de cuidado, atenção e dedicação. O resto era EGO. E aí é que entrar a questão profissional... porque foram tantos dias imersas na maternidade, que todo o resto, nada, parecia fazer sentido. Tive que me reconstruir, me refazer, e ainda não me considero "inteira". A Janaína com três anos, no meio da Pandemia, eu estava separada do pai dela, e tivemos o diagnostico da Diabetes Tipo 1, doença auto imune em que o Pâncreas para de produzir insulina, e com isso, desde então, tenho que aplicar pelo menos 5 agulhadas por dia para por insulina e fora algumas vezes que tenho que furar o dedo para conferir a glicemia, isso se, é obvio, eu estiver com um aparelho que mede a glicemia e custa 260 reais para durar 14 dias. Porque se não tiver, tenho que furar pelo menos a cada 2hrs. Insulina é hormônio e são muuuuuitos os fatores que alternam a glicemia.Me tornei "Mãe Pancreas", ou seja, a responsável, para o bom funcionamento do organismo dela, a partir do "controle da glicemia" que DENOVO abre espaço para muitas tentativas com erros e acertos. Assim, mais uma vez, tive que abrir mão de uma imagem idealizada e romantizada de ser mãe, tendo que aceitar imprevistos da vida. Enfim, maternar é constantemente se refazer, se reinventar, se adaptar. E a arte também. Hoje, só faz sentido fazer Arte, porque tenho inquietações e vivências potentes e verdadeiras em relação ao paradoxo de viver. Agradeço por ter esse caminho da Arte, como caminho de canalização das frustrações e etc. Enfim, o apoio entre as mulheres, as partilhas são fundamentais para trazer algumas verdades sobre cuidar de uma cria.

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Obra da artista

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Ornella Belén

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'Em trânsito' nasce das vontades de mostrar ao mundo os desafios que uma mãe artista independente tem para com seu dia a dia, mas mesmo assim, com amor e paciência se enfrenta, se entrega e flui nas adversidades das ruas. Pois pode ser difícil ser mãe, mas mais difícil seria se eu deixasse meus sonhos pra atrás; não tem sentimento mais gratificante que ver o sorriso dele, dela vendo mamãe ser artista, sendo humanx, sendo tudo o que quero ser. O palco também é um lugar de luta!

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Obra da artista

Rayssa Carneiro

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A maternidade não fosse em si já tão repleta de contradições, talvez não tivesse me trazido mais esta: me ver como artista. Logo a mãe, aquela que não tem tempo de se ver no espelho. Foi nessa condição que me vi tão repleta de sentimentos, que a vida não bastava. E quando a vida não basta, é a arte quem nos salva. A mãe que não tem vergonha de colocar o peito pra fora e alimentar o filho, é a mesma mulher que não conhecia direito sua voz e de repente sobe nos palcos para falar seus poemas. A maternidade é um monte de obrigações e tarefas diárias que tira o tempo da gente estudar, criar, experimentar artisticamente. Mas é essa mesma maternidade que põe alma no estudar, criar, experimentar. A coisa mais fina do mundo é conseguir manter viva essa alma, no meio de tantas obrigações e sob tantos julgamentos. A minha arte tem alma de mãe.

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Obras das artistas

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Taianã Mello

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Tarsila Alves

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A crueza e a crueldade do processo traumático do tornar-se mãe se dá em três dimensões: físico, psíquico e social. O ressecamento das mucosas durante o período de gestação e amamentação são inspiração para formulação dessas reflexões desenvolvidas em "O futuro tem gosto de areia quente e o passado tem cheiro de terra molhada." O corpo objeto (de alimentação, prazer e aconchego de outro ser), o corpo usado (cansado, desgastado, sem vida), o corpo ressecado (vagina sem lubrificação, unhas e cabelos quebradiços), o corpo deformado (estrias, marcas cirúrgicas, seios caídos). Mas também a despedida forçada de quem se era. Porque não é bem que você muda quando se torna mãe, mas sim que todo resto muda, te arrastando independente de seu desejo. Essa despedida, esse olhar para trás, essa melancolia. E também o isolamento. O isolamento de baixo de seu próprio teto. Parir e nutrir não é uma experiência compartilhável. A não ser pela arte. E essa é nossa tentativa aqui.

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Obra da artista

Tatiana Reis

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A maternidade inaugurou em mim um tipo estranho de solidão mas também novas formas de aterramento. Foi através desse processo de enraizar que entendi a maternidade como rizoma. Uma complexa e bonita construção em franca expansão capaz de me conectar com outras experiências e corpos que maternam e isso só ganhou forças depois que comecei a fotografar meu puerpério. Os dias de pouco sol, o sono, a solidão. Dali comecei a pintar e experimentar esculturas. Conheci outras artistas que também falavam sobre a maternidade, me aproximei, iniciei uma pesquisa acadêmica sobre elas. Aprendi a me organizar melhor para fazer valer meu tempo de criação, aprendi a ser mais generosa comigo. Acredito que a conexão com outras artistas mães me enriqueceu grandemente e tenho esperanças de que esse seja um movimento acertado. Nos conectar.